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Por que é difícil refazer novelas como ‘Vale Tudo’, com falas de Odete Roitman

“Negros vão à Justiça contra ‘Pátria Minha'”, diz o título de uma reportagem publicada neste jornal há quase 30 anos, depois de a TV Globo exibir em horário nobre uma cena da novela de Gilberto Braga em que o vilão, interpretado por Tarcísio Meira, acusa injustamente de roubo um de seus empregados, um homem negro vivido por Alexandre Moreno.

“Você abriu meu cofre, negro safado”, diz o patrão. “Vocês, quando não sujam na entrada, sujam na saída. Foi vingança? Vingança porque não deixei você estudar? Pensa que conseguiria aprender alguma coisa? Não sabe que o cérebro de vocês é diferente do nosso?”

A novela, que acaba de estrear no Globoplay, tem no início de cada capítulo um alerta de que a obra pode conter representações negativas e estereótipos da época em que foi realizada, mas é exibida na íntegra porque a Globo acredita que “essas cenas podem contribuir para o debate sobre um futuro mais diverso e inclusivo”.

À época, Braga afirmou que escreveu o diálogo para denunciar o racismo, e ativistas como a escritora Sueli Carneiro disseram que ele havia estimulado o preconceito. Discussões à parte, a cena poderia ser cortada hoje, sem nenhum prejuízo para a compreensão da trama, se a Globo assim quisesse.

É o que a emissora tem optado por fazer quando reexibe suas novelas, repletas de personagens que hoje são considerados ultrapassados, na televisão aberta, a exemplo de cenas de “blackface” em “Malhação” e “Êta Mundo Bom”.

Mas a situação é diferente em obras como “Vale Tudo”, outra de Gilberto Braga. Com nojo de pessoas pobres, sua vilã, Odete Roitman, diz uma frase politicamente incorreta atrás da outra, em todos os capítulos. Se a Globo tentasse suprimir os diálogos, a novela acabaria dilacerada, sem começo, meio e fim. Por outro lado, um simples aviso poderia não ser suficiente.

“Hoje ela seria levada ao pé da letra e poderia gerar protestos diante da porta da Globo”, diz o jornalista Mauricio Stycer, que assina uma coluna neste jornal e escreve uma biografia de Braga. Ao refletir sobre um possível remake da novela, que sites de notícias de televisão dizem estar em produção pela Globo, Stycer afirma esperar que “Odete Roitman seja ainda mais má”.

“O brasileiro precisa encarar uma vilã dessas, mas tenho sérias dúvidas se está disposto a isso”, diz ele. “O autor tem que deixar sempre claro que ele condena isso, mas não mostrar a cena ou a eliminar na reprise não é a solução.”

Odete Roitman não está. Há novelas em que o politicamente incorreto não se limita a um personagem ou a um diálogo, mas ao roteiro inteiro. É o caso de “Escrava Isaura”, ambientada no regime escravocrata, que narra a vida de uma escravizada branca, interpretada pela atriz Lucélia Santos.

O enredo foi criticado por tirar o protagonismo das populações negras e ignorar a resistência dos escravizados. Uma evidência disso é a alforria ser retratada como ato de benevolência da classe senhorial, e não como uma conquista dos escravizados.

As novelas ainda despertam debates sobre a representação de empregadas domésticas, sobretudo as que são negras. Autora do livro “Trabalho Doméstico”, a pesquisadora Juliana Teixeira afirma que, se não eram o alívio cômico do enredo, elas atuavam como mães postiças dos patrões.

“É como se fossem pessoas sem família. Existem cenas em que a empregada está servindo manhã, tarde e noite. É um corpo disponível o tempo todo”, diz Teixeira, que é professora da Universidade Federal do Espírito Santo.

Discussões em torno da representatividade negra, ou da falta dela, não ficaram no passado. Há cinco anos, “Segundo Sol” foi acusada de racismo por apresentar um elenco majoritariamente branco na Bahia, onde 76% da população se declara negra.

O Ministério Público do Trabalho notificou a Globo e fez recomendações de como a emissora poderia tornar suas novelas mais diversas. O autor, João Emanuel Carneiro, disse que a falta de representatividade foi um erro. “Tem que dar voz aos negros. Fazer novela com mais atores negros. Nessa ocasião, eu aprendi.”

Há dois anos, houve outra polêmica quando “No Tempo do Imperador” provocou indignação de ativistas após uma personagem sugerir que sofria preconceito por ser branca. A autora, Thereza Falcão, pediu desculpas nas redes sociais. “Foi péssimo. Pedimos muitas desculpas”, ela disse.

Os folhetins brasileiros também já foram acusados de reproduzir machismo e misoginia. Nilson Xavier, crítico de televisão e autor do livro “Almanaque da Telenovela Brasileira”, diz que “A Gata Comeu”, exibida pela Globo em 1985, era tão problemática que um remake seria inviável.

“A trama é sobre um amor que nasce a partir da violência, da troca de tapas entre um homem e uma mulher, tanto que um dos títulos pensados na época foi ‘Pancada de Amor Não Dói'”, diz ele, que vê machismo também em “Elas por Elas”, de 1982, que ganhou um remake agora.

O crítico diz que os autores da nova versão precisaram alterar profundamente o enredo, cortando, por exemplo, todas as cenas de René, personagem de Reginaldo Faria. “Ele é retratado como um galã romântico, mas era um homem machista, tóxico com a namorada, a personagem de Christiane Torloni.”

Ainda em “O Outro Lado do Paraíso”, há Samuel, personagem de Eriberto Leão que era gay, mas tinha medo de revelar sua sexualidade. Xavier diz que “a novela inteira expôs a situação em tom cômico e de deboche”, o que dificultaria um corte pontual.

É comum que os autores se defendam dizendo que cenas vistas como incorretas é um modo de jogar luz e denunciar algum problema social, mas uma dúvida hoje paira entre os roteiristas sobre o risco de fazer um desserviço ao retratar um preconceito nas telas.

“Depende de como o autor vai mostrar aquilo, porque muitas vezes ele trabalha apenas pela audiência. Se percebe que um personagem está dando certo, não vai mudar”, diz Xavier.

Mas a teledramaturgia não é feita só de novelas politicamente incorretas. Algumas até ajudaram a promover avanços sociais, diz Mauro Alencar, autor de “A Hollywood Brasileira: Panorama da Telenovela no Brasil” e doutor em teledramaturgia pela Universidade de São Paulo.

Ele lembra “Escalada”, de 1975, que teria ajudado a desmistificar o divórcio ao mostrar personagens infelizes em seus casamentos, e “Duas Vidas”, do ano seguinte, que pôs em evidência a autonomia feminina com Susana Vieira, que vivia uma mulher independente.

“O papel social da arte é mostrar, denunciar, abraçar e seduzir”, diz Alencar. “Foi por meio da nossa telenovela que o Brasil começou a enxergar diariamente as suas mazelas sociais.”

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