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Morre Manoel Carlos, autor que marcou a história das novelas, aos 92 anos

Morreu neste sábado (10), no Rio de Janeiro, o dramaturgo, produtor e diretor Manoel Carlos, aos 92 anos. Um dos nomes mais importantes da teledramaturgia brasileira, ele foi responsável por novelas que marcaram gerações, como Por Amor, História de Amor, Mulheres Apaixonadas, Laços de Família e Páginas da Vida. Sua morte foi confirmada nas redes sociais pela produtora Boa Palavra, responsável por seu legado. O velório será restrito a familiares e amigos próximos.

A causa da morte não foi divulgada. Conhecido como Maneco, o autor convivia havia mais de uma década com a doença de Parkinson, que se agravou nos últimos anos, com comprometimentos motores e cognitivos.

Manoel Carlos construiu uma carreira intimamente ligada à TV Globo, onde se destacou a partir dos anos 1980 ao retratar, com olhar sensível e realista, o cotidiano da burguesia carioca — especialmente do Leblon, bairro que se tornou quase um personagem fixo de suas tramas. Seu estilo de crônica urbana, marcado por diálogos longos, cenas de convivência familiar e conflitos morais, transformou situações corriqueiras em grandes dramas humanos.

Sua última novela foi Em Família (2014), em que abordou explicitamente a doença de Parkinson por meio de um personagem vivido por Paulo José, ator que também enfrentava a condição. A saída do autor da Globo, em 2015, foi conturbada e segue sendo motivo de disputas judiciais. Em setembro do ano passado, a Boa Palavra, criada pela atriz Júlia Almeida, filha do autor, entrou com ação contra a emissora, alegando falta de transparência na prestação de contas das reprises de suas obras.

As Helenas — protagonistas que se repetiram ao longo de sua obra — tornaram-se um dos maiores símbolos de sua dramaturgia. Mulheres fortes, imperfeitas, passionais, capazes de sacrifícios extremos pelos filhos e pela família, elas atravessavam dilemas éticos e emocionais que frequentemente mobilizavam o país. Regina Duarte, Vera Fischer, Christiane Torloni e Maitê Proença deram vida a essas personagens que ajudaram a redefinir a representação feminina na televisão brasileira.

Por trás do sucesso profissional, Maneco viveu uma sucessão de tragédias pessoais. Sua primeira mulher, Maria de Lourdes, morreu aos 37 anos após cair da escada de casa. Os dois filhos do casal também morreram precocemente: Ricardo, aos 32 anos, em 1988, em decorrência de complicações da aids, e Manoel Carlos Jr., vítima de infarto, aos 58, em 2012. Do terceiro casamento, com Betty, teve Júlia Almeida e Pedro. O filho caçula morreu subitamente em 2014, aos 22 anos, quando o autor tinha 81.

Nascido em 14 de março de 1933, em São Paulo, Manoel Carlos cresceu no bairro do Pari, em uma família de classe média alta que enfrentou dificuldades financeiras após a falência do pai nos anos 1950. Rebelde na juventude, não concluiu os estudos formais, mas formou-se pela vivência cultural intensa: leu vorazmente, aproximou-se do teatro amador e começou cedo a escrever, produzir e atuar.

Entrou para a televisão ainda nos primórdios do meio, aos 18 anos, na TV Tupi, em programas de teleteatro. Passou por emissoras como TV Paulista, Record e Excelsior, onde adaptou clássicos da literatura, escreveu musicais e trabalhou com nomes centrais da cultura brasileira, como Fernanda Montenegro, Sérgio Britto e Antunes Filho.

Nos anos 1960, teve papel decisivo na consolidação dos musicais da TV Record, sendo responsável por programas históricos como O Fino da Bossa e Jovem Guarda. Também esteve à frente de festivais que marcaram a música brasileira e, nos anos 1970, tornou-se produtor respeitado no mercado fonográfico, dirigindo shows e eventos emblemáticos como o Phono 73, marcado pela censura da ditadura militar.

Convidado por Jô Soares, chegou à Globo em 1973 e participou da criação do Fantástico, do qual foi diretor-geral. Poucos anos depois, iniciou sua trajetória definitiva como novelista da emissora, começando com Maria Maria (1978) e consolidando-se no horário nobre com Baila Comigo (1981).

A partir dos anos 1990, Manoel Carlos tornou-se sinônimo de novela de grande repercussão. Abordou temas sociais como câncer, alcoolismo, síndrome de Down, deficiência, envelhecimento e relações familiares, sempre com viés de conscientização. Seu texto sensível e musical, frequentemente embalado por trilhas de bossa nova, reforçou a identidade de suas histórias.

Reconhecido como um profundo observador da alma feminina — apelidado de “o Chico Buarque das novelas” —, Maneco dizia que essa habilidade vinha da convivência intensa com mulheres desde a infância. “As mulheres têm mais força, são mais heroicas e têm mais caráter que os homens”, afirmou em diversas entrevistas.

Entre dias sombrios e ensolarados, como as paisagens do Leblon que tanto retratou, Manoel Carlos construiu uma obra que ajudou a contar a história da televisão brasileira — e da própria sociedade — com delicadeza, emoção e humanidade. Seu legado permanece vivo nas reprises constantes de suas novelas e na memória afetiva de milhões de brasileiros.

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