Cultura

Eric Clapton, Letitia Wright e artistas antivacina causam atrasos e perdas na cultura

Lançado há poucos dias, o filme “Não Olhe para Cima” reuniu a nata de Hollywood para tirar sarro dos negacionistas e dos crentes em fake news que se proliferaram pelo mundo especialmente nos últimos dois anos, em que a Covid-19 gerou debates intermináveis em torno de vacinas, tratamentos e política.

Com piadas absurdas e que passam longe da sutileza sendo recitadas por gente como Leonardo DiCaprio, Meryl Streep e Ariana Grande, o filme nos faz pensar que as estrelas do cinema, da TV e da música estão blindadas dessa nova moda de negação da ciência. O que, definitivamente, não é verdade.

Vimos ao longo de 2020 e de 2021 uma série de astros entrando na mira da internet por fazerem propaganda antivacina ou por burlarem as regras de isolamento social que estiveram em efeito por boa parte desses dois anos.

Esse tipo de atitude foi mais exceção do que regra, é verdade, mas provou que os famosos também são gente como a gente -e que até sob os holofotes há opiniões controversas contribuindo para a desinformação em torno da pandemia que enfrentamos.

Talvez a mais ilustre dessas celebridades antivacina seja Donald Trump. Apesar de seu último posto de destaque ter sido o de presidente dos Estados Unidos, um cargo político, não podemos esquecer que o americano também fez carreira no entretenimento, à frente do reality show “O Aprendiz”.

Em seus quatro anos de Casa Branca, Trump colecionou medidas controversas no trato da Covid-19, o que fez com que estudos o apontassem como o principal responsável por atrasar o combate à doença e aumentar o número de mortos nos Estados Unidos.

Saindo da esfera política e de solo americano, no entanto, a principal voz do movimento antivacina no audiovisual é talvez Letitia Wright, atriz guianesa-britânica que ganhou fama como a irmã do super-herói Pantera Negra, no filme de 2018.

Tudo começou em dezembro passado, quando ela publicou em suas redes sociais um longo vídeo em que um youtuber questionava os efeitos das vacinas contra a Covid-19, sem embasamento científico, defendendo que as pessoas não a tomassem.

“Se você não se conforma com as opiniões populares e em vez disso faz perguntas e pensa por si próprio, você é cancelado”, disse ela, após a primeira leva de críticas que recebeu.

Pouco depois, fontes alegaram que Wright com frequência fazia comentários antivacina no set de filmagem da sequência de “Pantera Negra”, o que resultou no fim do contrato entre a atriz e seu time de representantes nos Estados Unidos. Ela deletou sua conta no Twitter logo após o episódio.

É provável que seu comportamento comprometa suas futuras participações no Universo Cinematográfico Marvel. Com a morte do astro da saga, Chadwick Boseman, muitos apostavam que Wright ganharia mais protagonismo -mas seria difícil para a Disney divulgar um filme colado à imagem de uma figura tão polêmica.

Outro rosto da Marvel que gerou burburinho nas redes lá atrás foi Evangeline Lilly, de “Homem-Formiga e a Vespa”, que no início da pandemia disse que não praticaria distanciamento social e isolamento porque “algumas pessoas dão mais valor à vida do que à liberdade, e outras dão mais valor à liberdade do que à vida”. Diferentemente de Wright, no entanto, ela se mostrou arrependida e se desculpou.

Esse tipo de atitude tem causado dores de cabeça em Hollywood, meca cinematográfica num país que já tem doses suficientes para imunizar totalmente sua população -mas que esbarra no ceticismo e nas fake news que rondam a vacina.

Revistas estrangeiras especializadas vêm noticiando, nos últimos meses, casos de produções de cinema e TV que foram atrasadas porque alguns de seus astros não se vacinaram ou porque não têm levado as atuais restrições a sério. E isso é bastante grave quando falamos de um setor que funciona com parte de seus funcionários, os atores em cena, sem máscaras.

Atualmente, não há uma regra comum a todos os estúdios e produtoras de cinema e TV, e cada projeto segue suas próprias regras quanto à exigência de vacinação. A Disney, por exemplo, adotou um sistema de adesivos que identificam no set quem foi vacinado e quem não foi. Já a Universal exige que todos os seus atores da chamada “zona A” –os protagonistas– estejam totalmente imunizados.

“Nós normalizamos a noção de liberalismo radical, o que é uma violação da ideia de coletividade”, disse Sean Penn, após se recusar a voltar ao set de um filme da Universal até que todos os funcionários estivessem vacinados, em julho.

Na Paramount, a polêmica se deu em torno da série derivada de “O Poderoso Chefão”, que teve um prejuízo de US$ 6 milhões -cerca de R$ 33 milhões- quando precisou parar porque um de seus atores da “zona A” contraiu Covid. O estúdio não divulgou nomes, mas fontes afirmaram à imprensa de Los Angeles que Miles Teller, um dos protagonistas de “The Offer”, tem se recusado a se vacinar e até mesmo a fazer testes.

A história faz lembrar de outro astro da franquia “O Poderoso Chefão”, esse das antigas, que já esteve sob escrutínio público por espalhar desinformação sobre vacinas. Robert DeNiro, há cerca de cinco anos, participou de uma palestra que alertava sobre o suposto risco de vacinas causarem autismo -algo refutado por autoridades sanitárias, como o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos– e ajudou a divulgar um documentário sobre o assunto.

Sobre as vacinas de Covid, DeNiro não disse nada, mas seu passado prova que a relação de Hollywood com o negacionismo científico é antiga. Na lista de detratores dos imunizantes estão ainda Jim Carrey, outro adepto da mesma infundada teoria do autismo, Rob Schneider, que lançou campanha pelo não à vacina, e Woody Harrelson, que publicou comentários sugerindo que a tecnologia 5G tem acelerado as contaminações pelo novo coronavírus, outra teoria refutada por autoridades sanitárias.

No Brasil, essa é uma questão um tanto menos urgente, já que, como os dados comprovam, nossa população é muito mais adepta à imunização do que os americanos ou boa parte dos europeus, que viram suas campanhas vacinais estagnarem. Mas, mesmo assim, também temos críticos à Coronavac, AstraZeneca, Pfizer e companhia.

Ainda em dezembro passado, por exemplo, a atriz Elizângela disse que “penetração forçada sem consentimento é estupro”, em uma crítica à então debatida obrigatoriedade da vacina no país. Dado Dolabella, quando os imunizantes começaram a chegar por aqui, afirmou que só se imunizaria quando houvesse uma “vacina vegana”, que não tivesse sido testada em animais.

Juliano Cazarré, há alguns meses, protagonizou o rumor de que poderia perder sua vaga no remake da novela “Pantanal”, da Globo, por não querer se vacinar. O ator, mais tarde, explicou que se vacinaria, sim, e que seu receio estava relacionado ao fato de já ter contraído Covid e ao medo de que uma nova carga viral em seu corpo seria prejudicial. Vale lembrar que os especialistas recomendam que a vacina seja tomada mesmo por quem já teve a doença.

A Globo de fato vem exigindo que todos os seus profissionais estejam imunizados. Há alguns meses, a emissora enviou a seus colaboradores um comunicado orientando sobre a política. “Seguindo o compromisso de contribuir para um ambiente seguro para nossas pessoas, informamos que a vacinação contra a Covid-19 passa a ser uma condição obrigatória”, dizia a nota, que alertava que a recusa poderia “resultar no desligamento” do funcionário.

O SBT, de forma semelhante, “solicita a vacinação das três doses aos seus colaboradores, para diminuir o risco de contaminação ou eliminá-lo”. A Record não comentou sobre os procedimentos adotados nos bastidores de sua teledramaturgia.

Essa, no entanto, não é uma discussão restrita ao cinema e à TV. Ainda no setor cultural, músicos também vêm sendo cancelados por seus ataques sem provas à vacinação. Lá fora, os casos mais emblemáticos foram os da rapper Nicki Minaj, impedida de ir ao baile Met Gala por não estar vacinada, e de Eric Clapton.

O roqueiro embarcou numa verdadeira cruzada antivacinal, com posts virais nas redes, e chegou a gravar uma música criticando o lockdown -“você quer ser um homem livre ou um escravo?”, questiona a letra de “Stand and Deliver”. Após tomar a AstraZeneca, ele culpou a vacina por males e dores que já havia relatado sofrer há anos, devido a problemas neurológicos.

Mais recentemente, disse que se recusaria a tocar em casas de shows que exigissem comprovante vacinal do público. Muitos têm visto as afirmações como um triste canto do cisne para um dos maiores guitarristas de todos os tempos, hoje com 76 anos.

Com a dose de reforço chegando para os mais novos e o aumento de infecções causado pela variante ômicron, o debate em torno da vacina parece estar longe do fim. É provável que nomes como Clapton e Letitia Wright continuem desmerecendo o esforço da comunidade científica em torno da vacina, atrasando o combate a uma doença que, ironicamente, lhes afastou dos palcos e das telas e deu tempo livre para que passassem horas e mais horas espalhando desinformação nas redes sociais.

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