Cultura

Livro mostra Roberto Marinho habilidoso nos meandros do poder político

Classificado como um perfil biográfico, o que não chega a ser uma biografia, como logo explicará seu autor, o novo livro sobre Roberto Marinho descreve o brasileiro mais poderoso do século passado como um sujeito de 1,64 m, que se valia de palmilhas internas nos calçados para forjar uma estatura maior.

Assim relata Eugênio Bucci, que assina “Roberto Marinho: Um Jornalista e Seu Boneco Imaginário” (Cia. Das Letras).
Em 329 páginas, Bucci traça um perfil capaz de explicar a trajetória de sucesso de seu personagem, a partir da conexão entre um episódio de agressão na infância do fundador da Globo e da descrição sobre seu quadro favorito,

“O Boneco”, de José Pancetti (1902-58), ostentado em uma das paredes da mansão do Cosme Velho, onde o dono da Globo morou por muitos anos, até morrer, em 2003, aos 98 anos.

Entre um ponto e outro, o autor percorre todo o histórico da construção do maior império de comunicação do país, desde o jornal A Noite, fundado pelo patriarca, Irineu Marinho, negócio que foi perdido para um sócio que lhe traiu a confiança, até a criação e ascensão da Rede Globo, traçando um panorama da imprensa e da indústria do entretenimento no século 20.

Foi de um concurso para batizar o novo jornal de Marinho que nasceu o nome O Globo, que depois nominaria a Globo e se tornaria a marca de mídia mais forte do país.

O livro esmiúça a invejável habilidade de seu retratado para circular pelos meandros do poder político e econômico desde muito cedo, o que fez dele um aliado de Getúlio Vargas já em 1930 –com rompimento pouco depois, em tempo de se dissociar do apoio de Vargas ao nazismo.

Revisita também suas relações com o regime militar, o que aconteceu sem esbarrar na subserviência de entregar as cabeças comunistas que o patrão abrigava no jornal e na TV, devidamente protegidas por ele.

E alcança a eleição de 1989, quando teve como franco favorito o então candidato Fernando Collor de Mello, cujo pai, Arnon de Mello, conhecia de longa data.

De mira ruim, Arnon tinha negócios com Marinho e foi claramente defendido pelas páginas do jornal O Globo quando atirou em Silvestre Péricles no Senado, em 1963, tendo acertado o colega José Kairala, do Acre, que morreu.

Os relatos sobre a primeira cena de pugilato do primogênito de Irineu Marinho, quando socou na rua um sujeito que o agredira ainda criança na escola, são parte das memórias anotadas pelo próprio Roberto Marinho em um ensaio de autobiografia que ele nunca chegaria a escrever, intitulada “Condenado ao êxito”.

“Esse nome é maravilhoso”, comenta Bucci em entrevista à reportagem. No livro, o autor observa que “foi a memória oculta, inconfessa, da criança nocauteada que o impeliu para o combate”, fato que resultou em todas as suas conquistas.

A isso, Bucci relaciona a interpretação de Marinho sobre “O Boneco”, por meio de um depoimento dado a pedido da curadora Lícia Olivieri, em 1991: “Toda vez que olho esse pequeno quadro de Pancetti, tenho a comovida sensação de estar olhando para dentro de mim mesmo. Tem ele um poder evocativo que me fascina, pois que dentro desse boneco há um menino, envolto de solidão, mistério e fantasia […]”

“Aquela experiência em que ele conta como o colega bateu nele na escola é muito forte”, conclui Bucci. “E, a partir da luz lançada pelo quadro do ‘Boneco’, existe uma conexão para compreender essa figura. Isso desperta a admiração, inclusive da minha parte”, explica.

Professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA), da USP, Bucci se dedica há quase 30 anos a compreender a televisão, de sua concepção à forma como é recebida pela plateia, como endossava já no livro “O Brasil em Tempo de TV” (Boitempo, 1996), onde traça a relevância da televisão, com a Globo à frente, para o projeto de unificação do país almejado pelo regime militar a partir da criação da Embratel.

“Eu tinha essa forma de olhar, já que eu tinha estudado isso e é uma coisa muito forte na minha vida”. À base de leitura de artigos, livros e da recuperação de antigas pesquisas e estudos, “foi aparecendo uma espécie de chave psicológica do personagem”.

“Claro que eu não quero nem tenho habilitação para fazer uma análise psicológica ou psicanalítica de uma pessoa, inclusive uma pessoa que já morreu, não é isso. Mas essa história da agressividade, da combatividade foi me aparecendo, foi se mostrando para mim à medida que eu fazia essas leituras, até que eu vi o que ele escreveu sobre o ‘Boneco’ e vi que isso é a revelação do que ele foi.”

Por meio de vários textos sobre TV no seu histórico jornalístico, Bucci foi muitas vezes severo crítico de Roberto Marinho, alguém que se fazia chamar por “doutor”, apesar de não possuir qualquer formação acadêmica.

Mas reconhece que ele mesmo se emocionou ao visitar a mansão do Cosme Velho, no Rio, transformada em museu, e fitar “O Boneco” sob a perspectiva de seu biografado.

Foi em 2013, após participar de uma edição do Roda Viva como entrevistado, que Bucci diz ter recebido de Mario Sergio Conti, então âncora do programa da TV Cultura e coordenador da coleção Perfis Brasileiros, da Cia. Das Letras, o primeiro convite para escrever sobre o criador da Globo.

“Um perfil é uma forma de olhar um personagem”, explica.

“Isso é uma categoria clássica no jornalismo. Talvez por um traço da minha formação, quando eu fico curioso, a minha primeira reação é ir para minha biblioteca ou para uma biblioteca. Primeiro vou ler sobre aquele assunto, e ao mesmo tempo eu fui falando com pessoas e cito fontes, além de eu ter um acompanhamento muito grande que eu fiz da Globo ao longo dos anos.”

Uma das vozes ouvidas especificamente para o livro da vez foi João Roberto Marinho, hoje presidente do Grupo Globo, que sempre esteve à frente da linha editorial do grupo, desde que o pai deixou essa função, pouco antes de morrer.

Bucci aproveita para validar com ele um dos polêmicos episódios narrados pelo jornalista Leonencio Nossa naquela que ele mesmo trata como a principal biografia de Roberto Marinho, “O Poder Está no Ar”, projeto original da Cia. Das Letras que acabou saindo pela editora Nova Fronteira.

O caso diz respeito a um prometido empréstimo que o banqueiro Walther Moreira Salles faria a Roberto Marinho para quitar sua dívida com o Citibank.

A instituição havia socorrido Marinho no momento em que a emissora precisou se livrar da sociedade com o grupo Time-Life, com o qual a emissora se associou em seus primeiros anos no ar e do qual teve se se livrar por restrições legislativas à sociedade com grupos estrangeiros na radiodifusão.

Leonencio relata, por meio de três fontes, que Walther Moreira Salles bancaria o débito assumido como o Citibank, em troca de assumir a Globo.

A Bucci João Roberto diz não acreditar nessa versão de que Moreira Salles seria um traidor porque o pai e o banqueiro pareciam nutrir ótimas relações, mas não refuta essa possibilidade.

“Eu acho difícil ter sido o Walther, mas tem várias pessoas que dizem que isso houve. Então, eu não posso descartar essa hipótese”, admite.

Fato é que Roberto Marinho foi socorrido por José Luiz de Magalhães Lins, um dos mais altos executivos do Banco Nacional, que vem inclusive a ser uma das fontes ouvidas por Leonencio na biografia da Nova Fronteira.

O lançamento do livro de Bucci pela série “Perfis Brasileiros”, na mesma Cia. Das Letras que perdeu o livro de Leonencio para a Nova Fronteira, suscitou rumores de que a editora quisesse lançar outra biografia para compensar a perda da anterior.

Mas Bucci assegura que sua meta era de fato um perfil, não uma biografia, para a qual diz que não teria tempo. “A proposta é completamente diferente, eu não quis fazer uma biografia e nem poderia. Eu não dispunha do tempo e da energia necessárias para um projeto grande.”

“Eu não tenho intenção de fazer grandes revelações, o livro não interessa tanto sob esse aspecto. O que me interessa é o perfil, quem é essa figura que aos 20 e poucos anos começou a assumir posições de liderança num jornal e fica no comando dessa cena por 70 anos.”

“Existe a biografia do Pedro Bial [Ed. Zahar, 2004], a do Leonencio, e podem aparecer outros [livros], até torço para que apareçam porque trata-se de alguém que comporta muitos estudos, é um nome-chave na evolução do capitalismo brasileiro da segunda metade do século 20.”

À reportagem, a Cia. Das Letras nega que o livro de Bucci seja uma espécie de compensação ao de Leonencio, com quem a editora trava uma briga na Justiça, desde que o jornalista e biógrafo, alegando constrangimento por intervenções na obra, deixou a editora e publicou o livro pela Nova Fronteira.

Também por meio de sua assessoria, a Companhia das Letras nega intervenção no livro e informa que o perfil de Bucci foi feito simultaneamente à biografia de Leonencio, já que os dois produtos não são excludentes.

Como exemplo, a editora cita a biografia de Getúlio Vargas por Lira Neto, em 2012, e o perfil do mesmo personagem, por Boris Fausto, em 2006. Outro exemplo de dualidade é D. Pedro 2º, que conta com a biografia “As Barbas do Imperador”, de Lilia Schwarcz, de 1998, e “D. Pedro 2º”, também da série Perfis Brasileiros, de 2007, feita por José Murilo de Carvalho.

“ROBERTO MARINHO – UM JORNALISTA E SEU BONECO IMAGINÁRIO”
Preço: R$ 84,90
Autor: Eugênio Bucci
Editora: Cia. Das Letras
Produção: 329 páginas

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