Os principais alvos da Operação Contenção, deflagrada contra o Comando Vermelho (CV), administravam a facção por meio de grupos de WhatsApp. As conversas mostram ordens diretas, decisões estratégicas e até a definição de escalas de plantão nas comunidades.
Os prints das mensagens integram a denúncia apresentada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ), com base na investigação conduzida pela Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE).
Controle e segurança de Doca
Os diálogos revelam a preocupação da cúpula do CV com a segurança do líder Edgar Alves de Andrade, o Doca, considerado o principal chefe da facção em liberdade.
Homens de confiança do criminoso — entre eles Pedro Paulo Guedes, o Pedro Bala; Carlos Costa Neves, o Gardenal; e Washington Cesar Braga da Silva, o Grandão — orientavam seguranças, coordenavam o tráfico e controlavam o fluxo de dinheiro ilícito.
Imagens obtidas pelos investigadores mostram “soldados” do CV monitorando vias do Complexo do Alemão e a entrada da casa de Doca, apelidada de Toca do Urso.
Segundo o relatório policial, Pedro Belo, apontado como a principal liderança do CV no Complexo da Penha, atua ao lado de Doca e acumula mais de 160 anotações criminais, incluindo homicídio, tráfico e roubo.
Em mensagens interceptadas, um dos líderes reforça a hierarquia:
“Ninguém dá tiro sem ordem do Doca ou do Bala. Vamo pegar a visão.”
Hierarquia e comando pelo WhatsApp
Responsável direto pela segurança de Doca, Gardenal é descrito como o homem que decide quem pode se aproximar do chefe e quem tem acesso ao grupo de mensagens. Ele ocupa posição superior à de Grandão na hierarquia.
“Rapaziada, pegar a visão aqui no portão do pai. Ninguém entra armado aqui dentro da casa e ninguém entra sem autorização. Samuca e Tizil ficam responsáveis aqui na porta”, escreveu Gardenal em uma das mensagens.
“Frisar bem o papo. Não pensa com o coração nem com amizade. Isso é o crime.”
Já Grandão exerce o papel de “síndico” do CV: resolve questões administrativas, escala soldados, repassa ordens da liderança e organiza pagamentos e festas da facção. Em conversas obtidas pelo UOL, ele chega a enviar listas de plantões com os nomes dos responsáveis por cada rua.
Segundo a polícia, Grandão também mantinha perfil ativo na rede social X (antigo Twitter), com mais de 30 mil seguidores, onde fazia enquetes para escolher atrações dos bailes promovidos pela facção.
“Prestação de contas” e rotina do tráfico
Nos grupos de WhatsApp, integrantes discutiam pagamentos e repasses de lucros. Em uma das mensagens, um homem identificado como Dilma afirma que “chegou um menor para pegar o pagamento de Belão do Quitungo”, preso durante a operação no Complexo do Alemão.
Outro membro relata a necessidade de “recolher os lucros de uma boca de fumo”.
“Tem uma tia aqui falando que o chefe tá aguardando ela. Vê essa visão aí?”, diz outro trecho.
Quem é Doca
Foragido há sete anos, Doca é considerado o chefe máximo do Comando Vermelho em liberdade. Ele acumula 273 anotações criminais e 32 mandados de prisão.
Foi preso apenas uma vez, há quase duas décadas, por tráfico e associação criminosa, ocasião em que resistiu a tiros por horas. Sua violência e lealdade à facção o fizeram ascender na hierarquia mesmo de dentro da prisão.
De acordo com a DRE, Doca é o líder que ordena enfrentamentos contra o Estado e autoriza roubos de veículos e cargas. Está abaixo apenas de nomes históricos como Fernandinho Beira-Mar e Marcinho VP, ambos presos há mais de duas décadas.
Em 2021, Doca foi investigado por planejar o resgate de presos de Bangu com um helicóptero e é apontado como mandante do sequestro e assassinato de três meninos em Belford Roxo, crime motivado pelo furto de um passarinho.
Apesar da fama de discreto, leva vida de ostentação nas favelas: gosta de ouro, motos e é citado em letras de funk — como nas músicas de Oruam, que mencionam a Tropa do Urso, grupo ligado a Doca e Pedro Bala.
Caçada
Juntos, Doca e Pedro Bala comandam há pelo menos dez anos o tráfico na Vila Cruzeiro. Em 2015, Bala chegou a assumir o comando da facção na comunidade, até ser substituído por Doca — embora ambos continuassem no controle da região e da Tropa do Urso, braço responsável por tentar expandir o domínio da facção em outros territórios.
Um desses episódios ocorreu em agosto de 2022, durante uma ofensiva no Complexo do São Carlos, dominado pelo TCP, no centro do Rio.
O Disque Denúncia oferece recompensa de R$ 100 mil por informações que levem à captura de Doca — principal alvo da operação mais letal da história do Rio de Janeiro.
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