Aos 56 anos e com 39 dedicados à música — 26 deles no Exaltasamba e os últimos 13 em carreira solo — Péricles Aparecido Fonseca de Faria, o Pericão, segue como uma das vozes mais influentes da música brasileira e uma referência para artistas negros.
Em um país que ainda enfrenta machismo, racismo e intolerância religiosa, ele diz que o sucesso traz também responsabilidade.
“Por mais que a gente tenha evoluído em alguns pontos, em outros estamos muito atrasados”, afirma. Para ele, o mês da Consciência Negra é um lembrete indispensável. “É para lembrar que esse é um problema de todos nós. A situação do jovem e do homem negro precisa ser constantemente lembrada. A gente não tem que ser aceito, tem que ser respeitado.”
Preconceito contra gêneros negros
Péricles lamenta que o preconceito contra ritmos como samba, funk e rap ainda persista.
“O ser humano tem medo do que não conhece. Mesmo com tanta informação, muitos não buscam entender de onde vêm e qual é a própria história”, diz o cantor, que será homenageado na quinta edição do Prêmio Potências, em São Paulo.
Racismo ainda presente
Mesmo consolidado na carreira, ele revela que ainda sofre racismo.
“Sim. Um dos meus sofre e o outro também sofre”, comenta, referindo-se a si mesmo e aos seus.
Segundo ele, olhares desconfiados em determinados ambientes continuam frequentes:
“É aquele olhar do tipo ‘o que esse cara faz aqui?’. Mas não deixo isso me abalar. Sou a voz de vários que não tiveram a chance que eu tenho. Vou fazer pelos meus.”
Ele afirma que sua postura acolhedora vem da própria história:
“Só acolho como acolho porque também fui acolhido. E sei que muita gente está precisando.”
Impacto dos episódios recentes de racismo
Para Péricles, episódios recentes — como operações policiais violentas no Rio ou debates sobre apagamento de personagens negras — o afetam profundamente.
“São acontecimentos chocantes. Infelizmente, podem acontecer muito perto da gente.”
The Voice e novos projetos
Atual técnico do The Voice no SBT, ele celebra a experiência:
“É único. Estou abraçando da melhor maneira. Independente da cadeira virar ou não, descobrimos grandes vozes.”
Também fala sobre a turnê ao lado de Ferrugem, com participação de Belo, que passará por 12 capitais.
“É maravilhoso cantar nossas obras juntos. E estamos formando um público muito maior.”
Família, legado e futuro
À espera do primeiro neto, ele não esconde a emoção:
“Meu neto está chegando e estamos muito felizes.”
Seu desejo é preparar o mundo para as novas gerações — e preparar as novas gerações para o mundo.
Relembrando a adolescência, ele diz que foi quando tomou consciência de sua identidade:
“Percebi que era um jovem negro da periferia, parte de algo muito maior: a sociedade.”
Para ele, a base familiar foi essencial.
“Sempre soube que tinha uma família que me acolhia. Quem não tem família, tem amigos. Sempre há alguém de braços abertos.”
Pagode em crescimento
Referência no gênero, Péricles credita seu aprendizado aos ídolos.
“Aprendi com grandes artistas. O Fundo de Quintal deixou um legado incrível de postura, educação e respeito. É isso que quero deixar para os meus filhos.”
Ele vê o pagode retomando força no cenário atual.
“Com um olhar mais profissional, o pagode está crescendo e se firmando novamente. Hoje é uma realidade.”



